Se tem um assunto em segurança do trabalho que parece simples mas gera uma confusão enorme na prática, é EPI. Todo mundo sabe que precisa usar. A maioria sabe que a empresa é obrigada a fornecer. Mas na hora de definir qual EPI para qual atividade, de exigir o Certificado de Aprovação correto e de documentar tudo direitinho, a coisa complica.
Esse guia é uma referência prática. A ideia é que você consiga consultar por tipo de atividade e entender o que a NR-06 exige, sem precisar ler a norma inteira.
O que a NR-06 diz sobre EPI
A NR-06 é a norma que regulamenta o Equipamento de Proteção Individual no Brasil. Ela define EPI como "todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho".
A norma é clara sobre uma coisa: EPI é a última linha de defesa. Antes de entregar um protetor auricular, a empresa deveria ter tentado eliminar a fonte do ruído, depois isolá-la, depois reduzir a exposição do trabalhador. Só quando essas medidas não forem suficientes é que o EPI entra. Na prática, a gente sabe que muita empresa inverte essa lógica e entrega EPI como primeira (e única) medida. Mas a norma não permite isso.
Outro ponto fundamental: todo EPI comercializado no Brasil precisa ter Certificado de Aprovação (CA) emitido pelo Ministério do Trabalho. O CA atesta que o equipamento foi testado e aprovado para a finalidade a que se destina. EPI sem CA válido não pode ser usado. Isso vale para tudo, do capacete ao protetor solar de uso ocupacional.
Categorias de EPI
A NR-06 organiza os EPIs por parte do corpo que protegem. Conhecer essa classificação ajuda a montar o inventário da empresa:
Proteção da cabeça
Capacetes de segurança (classe A para impactos gerais, classe B com proteção contra choque elétrico), capuzes e balaclava para proteção contra respingos e produtos químicos.
Proteção dos olhos e face
Óculos de segurança (incolores, escuros ou com filtro especial), protetor facial (face shield), máscaras de solda com filtro automático ou fixo.
Proteção auditiva
Protetor auricular tipo inserção (plug), protetor tipo concha (abafador), protetor com comunicação para ambientes onde é preciso ouvir alertas.
Proteção respiratória
Respiradores semifaciais com filtro (P1, P2, P3 para partículas; filtros químicos para gases e vapores), respiradores faciais inteiros, equipamento de respiração autônoma para atmosferas IPVS (imediatamente perigosas à vida ou saúde).
Proteção do tronco
Aventais (de raspa para soldagem, de PVC para produtos químicos, de chumbo para radiação), coletes refletivos para trabalho em vias públicas.
Proteção de membros superiores
Luvas de diferentes materiais conforme o risco: couro para abrasão, nitrílica para químicos, isolante para trabalho elétrico, anticorte para manuseio de chapas. Cada tipo tem classificação específica de proteção.
Proteção de membros inferiores
Calçados de segurança com biqueira de aço ou composite, botas de PVC para ambientes úmidos ou com produtos químicos, perneiras para proteção contra animais peçonhentos ou respingos.
Proteção contra quedas
Cinturão de segurança tipo paraquedista (obrigatório para trabalho em altura conforme NR-35), talabartes com absorvedor de energia, trava-quedas, linhas de vida.
Proteção da pele
Cremes de proteção (grupos 1, 2 e 3 conforme o agente: água, óleo, produtos químicos), protetor solar com FPS adequado quando há exposição ocupacional ao sol.
EPIs por tipo de atividade
Aqui é onde o guia fica prático. Listei as atividades mais comuns e os EPIs tipicamente necessários. Um aviso importante: essa lista é uma referência geral. O que define os EPIs obrigatórios para cada função é o PPRA/PGR da empresa, com base na análise de riscos específica daquele ambiente. Duas empresas do mesmo setor podem ter exigências diferentes dependendo das condições reais de trabalho.
Construção civil
A construção é provavelmente o setor com maior variedade de EPIs obrigatórios, porque os riscos mudam conforme a fase da obra.
- Capacete classe A (obrigatório em toda a obra)
- Óculos de segurança para atividades com projeção de partículas
- Protetor auricular em operações com máquinas ruidosas
- Luvas de acordo com a atividade (raspa para armação de ferro, borracha para contato com cimento úmido)
- Calçado de segurança com biqueira e solado antiderrapante
- Cinturão paraquedista e talabarte para trabalho acima de 2 metros
- Protetor solar quando há exposição ao sol
- Colete refletivo para áreas com tráfego de veículos e máquinas
Trabalho com eletricidade
A NR-10 define os requisitos específicos, mas os EPIs essenciais incluem:
- Capacete classe B (com isolamento elétrico)
- Luvas isolantes de borracha (com luva de cobertura em raspa)
- Calçado isolante
- Óculos de segurança
- Vestimenta antichama para trabalho com risco de arco elétrico
- Protetor facial para manobras em painéis
Nas atividades com eletricidade, a classe de proteção das luvas e do calçado precisa corresponder à tensão do circuito. Luva classe 0 para até 1.000V, classe 1 para até 7.500V, e assim por diante. Usar a classe errada é o mesmo que não usar.
Manuseio de produtos químicos
- Respirador com filtro adequado ao produto (filtro químico para vapores orgânicos, amônia, gases ácidos, conforme a FISPQ do produto)
- Óculos de segurança ampla visão ou protetor facial
- Luvas de material compatível com o produto (nem toda luva resiste a todo químico; nitrílica é versátil, mas não serve para tudo)
- Avental de PVC ou Tyvek, conforme o risco
- Bota de PVC
Um erro muito comum: usar luva de látex achando que protege contra qualquer produto químico. Látex é permeável a muitos solventes. A FISPQ (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos) indica qual material de luva é adequado para cada substância. Consultar a FISPQ não é opcional.
Soldagem
- Máscara de solda com filtro adequado ao processo (tonalidade do filtro varia conforme o tipo de soldagem e a amperagem)
- Avental e mangotes de raspa de couro
- Luvas de raspa de couro, cano longo
- Perneira de raspa
- Calçado de segurança com biqueira
- Respirador para fumos metálicos em ambientes confinados ou com ventilação insuficiente
- Protetor auricular quando o processo gera ruído acima dos limites
Trabalho em ambientes de saúde
- Luvas de procedimento (látex, nitrílica ou vinil)
- Máscara cirúrgica ou respirador PFF2/N95 conforme o risco biológico
- Óculos de segurança ou protetor facial para procedimentos com risco de respingos
- Avental impermeável
- Calçado fechado, impermeável, antiderrapante
A NR-32 detalha as exigências específicas para serviços de saúde. O ponto crítico aqui é que os EPIs precisam ser descartados ou descontaminados conforme protocolo. Não é só ter o EPI, é garantir que ele seja usado, descartado e reposto corretamente.
Trabalho em escritório
Parece que escritório não precisa de EPI, e na maioria dos casos realmente não precisa. Mas existem exceções. Se o trabalhador visita obra, fábrica ou área operacional, precisa dos EPIs correspondentes àquele ambiente. Se há exposição a ruído (call centers, por exemplo), pode ser necessário protetor auricular. E se há trabalho com ergonomia inadequada, embora não seja EPI no sentido estrito, a NR-17 exige adequação do mobiliário.
Obrigações do empregador
A NR-06 é bem direta sobre o que a empresa precisa fazer:
- Adquirir o EPI adequado ao risco de cada atividade
- Exigir o uso (não basta fornecer, tem que cobrar)
- Fornecer gratuitamente ao empregado (cobrar pelo EPI é ilegal)
- Orientar e treinar sobre o uso correto, guarda e conservação
- Substituir imediatamente quando danificado ou extraviado
- Responsabilizar-se pela higienização e manutenção periódica
- Comunicar ao MTE qualquer irregularidade observada nos EPIs
- Registrar o fornecimento na ficha de EPI do empregado (com assinatura)
Esse último ponto é onde muita empresa tropeça. A ficha de EPI é o documento que comprova que a empresa forneceu o equipamento e que o trabalhador recebeu treinamento. Sem ficha assinada, em caso de acidente, a empresa não consegue provar que cumpriu sua obrigação. E a consequência pode ser responsabilização civil e criminal.
Obrigações do empregado
O trabalhador também tem responsabilidades conforme a norma:
- Usar o EPI apenas para a finalidade a que se destina
- Responsabilizar-se pela guarda e conservação
- Comunicar ao empregador qualquer alteração que torne o EPI impróprio para uso
- Cumprir as determinações do empregador sobre o uso adequado
A recusa em usar EPI pode resultar em advertência, suspensão e até justa causa. Mas atenção: isso só vale se a empresa de fato forneceu o EPI correto, em boas condições, e treinou o trabalhador. Demitir por justa causa alguém que não usa EPI que a empresa nunca forneceu não funciona.
Violações mais comuns
Depois de ver muita empresa lidar com EPIs no dia a dia, alguns erros aparecem com frequência:
- EPI com CA vencido. O CA tem prazo de validade. Quando vence, o EPI não pode mais ser distribuído (os que já estão em uso podem continuar até o fim da vida útil, mas novos não podem ser entregues).
- EPI inadequado para o risco. Comprar o EPI mais barato sem verificar se a especificação técnica atende ao risco real. Luva que não resiste ao produto manuseado é o mesmo que mão desprotegida.
- Falta de treinamento. Entregar o EPI sem explicar como usar, quando trocar e como conservar. O trabalhador que nunca aprendeu a fazer teste de vedação do respirador provavelmente não está protegido.
- Não substituir EPI danificado. Capacete trincado, luva furada, calçado com solado desgastado. EPI deteriorado não protege.
- Ficha de EPI desatualizada ou inexistente. Sem registro, sem prova.
- Tamanho incorreto. EPI grande demais escorrega, apertado demais machuca. Os dois perdem a eficácia. Parece detalhe, mas protetor auricular do tamanho errado não veda e bota folgada causa acidente.
Na São e Salvo, quando a gente estrutura treinamentos de NR-06, bate muito nessa tecla: EPI não é só ter no almoxarifado. É selecionar certo, com CA válido, treinar, documentar, fiscalizar e repor. É um processo contínuo, não um evento.
Se a sua empresa quer organizar o programa de EPIs, comece pelo inventário de riscos do PGR. De lá saem os EPIs necessários para cada função. Depois confira os CAs, atualize as fichas e programe treinamentos práticos. É trabalhoso no começo, mas uma vez que o sistema está rodando, manter fica muito mais simples.



